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Livro sobre a tradição diplomática brasileira será lançada em Belo Horizonte nos dias 26 e 27

Em Sobre hemisférios, Luiz Feldman propõe uma leitura histórica das relações exteriores do país e de seus desafios no presente; lançamento será realizado na PUC Minas e na Academia Mineira de Letras

O que a história da diplomacia pode ensinar sobre o lugar do Brasil no mundo contemporâneo? Essa é uma das perguntas que orientam Sobre hemisférios: capítulos de geopolítica brasileira, de Luiz Feldman, que acaba de ser lançado pela Autêntica Editora. Resultado de uma extensa pesquisa sobre as ideias que orientaram a política externa entre meados do século XIX e meados do século XX, a obra propõe uma releitura de fôlego da história diplomática brasileira.

O livro será lançado em Belo Horizonte, em duas datas: no dia 26 de março, quinta, o autor participa de uma Aula Magna na Pontifícia Universidade Católica (PUC Minas) – Campus Coração Eucarístico (Av. Dom José Gaspar, 500, Coração Eucarístico), a partir das 10h30. No dia seguinte, 27 de março, sexta, participa de debate com o jornalista e escritor Rogério Faria Tavares, na sede da Academia Mineira de Letras (R. da Bahia, 1466, Lourdes), a partir das 19h30.

Em sua obra, Feldman parte da constatação de que a diplomacia brasileira concebe e procura delimitar um campo do Brasil no mundo. O autor examina concepções de espaço que orientaram esse processo de projeção externa e mostra que as relações internacionais do Brasil não se explicam apenas por alianças ou tratados, mas também por visões de civilização, cultura e poder.

Ao longo de quatro capítulos, o autor percorre momentos de virada da política externa brasileira. Situa o visconde do Uruguai, no século XIX, como o início de uma política externa brasileira propriamente dita, em que a diplomacia delineia a América do Sul como espaço geoestratégico básico do país e afirma a necessidade de uma diplomacia regional. Mais adiante, na virada para o século XX, Joaquim Nabuco defende o alinhamento com os Estados Unidos como forma de proteção da soberania e da integridade territorial do país frente aos imperialismos europeus.

Já Gilberto Freyre, nos anos 1940 e 1950, propõe uma inovadora concepção em que o Brasil não se limita ao hemisfério ocidental e se projeta, por suas afinidades culturais, para o Atlântico Sul e a África por meio de sua visão luso-tropicalista. O percurso se encerra com Afonso Arinos e San Tiago Dantas, formuladores da Política Externa Independente, entre 1961 e 1963, que buscaram redefinir a autonomia do país diante da Guerra Fria com o conceito de hemisfério sul, ou Sul político do mundo, por meio do qual a diplomacia começa a imaginar um campo brasileiro que abrange a América Latina, uma África descolonizada e, de modo geral, o universalismo da presença brasileira no mundo.

Esses episódios não são narrados como simples marcos históricos, mas como capítulos de uma história intelectual da política externa. Feldman mostra que cada um desses momentos representou uma tentativa de repensar o espaço brasileiro no mundo — de formular respostas próprias aos impasses da geopolítica. Sobre hemisférios entende a geopolítica na intersecção do cálculo estratégico com as ideias e valores com as quais o país procurou compreender a si mesmo.

Em seu prefácio, o embaixador Gelson Fonseca Jr., ele próprio um dos principais historiadores diplomáticos brasileiros, observa que “Sobre hemisférios desvenda, na verdade, modos de pensar questões permanentes da diplomacia brasileira. O que disseram o visconde do Uruguai, Nabuco, Freyre e Arinos não resolve, é claro, os problemas de hoje, mas ajuda a entendê-los; para mim, essa é a grande contribuição deste livro.”

Fonseca Jr. nota, igualmente, a relevância de Sobre hemisférios para a compreensão do papel, mais citado que estudado, do Barão do Rio Branco. De acordo com ele, o livro “lança um novo olhar sobre o barão do Rio Branco, patrono da diplomacia nacional. O chanceler aparece, em Sobre hemisférios, na múltipla condição de herdeiro de Uruguai, chefe de Nabuco, alvo de Freyre e inspiração de San Tiago Dantas. Recupera a tradição diplomática que o antecede e é também recuperado como símbolo dessa tradição pela diplomacia que o sucede. Feldman não o trata como marco zero, mas como encruzilhada histórica entre – em suas palavras – ordem regional e interesse extracontinental”.

Ao voltar à obra primordial desses diplomatas brasileiros, o livro de Feldman convida o leitor a pensar o presente com mais profundidade, compreendendo como os dilemas da grandeza, da aliança, da liderança e da independência continuam a atravessar a política externa. Ler Sobre hemisférios é entender que a história da diplomacia brasileira ainda tem muito a ensinar sobre como o país se pensa a partir da tradição e da inovação — e sobre como ele continuará a reinventar seu lugar em um mundo em plena desordem.

Sobre o autor: Luiz Feldman, diplomata e escritor mineiro, é também autor de Mar e sertão: ensaio sobre o espaço no pensamento brasileiro (Topbooks, 2023) e outras publicações no Brasil e no exterior.

Foto: Divulgação

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