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"Desassossego": monólogo poético estreia em BH e dá voz a corpos dissidentes e à neurodiversidade
Lucas Lopes transforma vivências de racialidade, sexualidade e autismo em potência cênica, convidando a uma reflexão sobre o que significa existir com liberdade.
Um corpo dissidente que ocupa o centro da cena pela palavra, pelo gesto e a memória, convocando experiências marcadas por racialidade, sexualidade e, sobretudo, neurodiversidade. Assim nasce “Desassossego”, monólogo poético do ator e escritor belo-horizontino, Lucas Lopes, que estreia no dia 18 de abril, às 13h, no Centro Cultural Venda Nova, com entrada gratuita (ingressos no link ) . A criação parte da própria trajetória artista, que é uma pessoa autista, para olhar de frente corpos atravessados por rótulos e violências cotidianas, perguntando o que acontece quando aquilo que costuma ser tratado como desvio ocupa o palco, transformando a particularidade em potência e coletividade. No mesmo dia, Lucas ministrará uma oficina gratuita de escrita por meio da memória, às 9h (mais informações no serviço).
Apresentado como manifesto cênico, o trabalho tem como ponto de partida as vivências de corpos neurodivergentes acostumados a negociar espaços em meio ao excesso de estímulos, às pressões sociais e as tentativas de enquadramento. “A partir das minhas vivências, percebi que muitas pessoas também passam por experiências marcadas por recortes opressores, especialmente relacionados à racialidade, sexualidade e neurodiversidade”, afirma Lucas. No lugar de esconder o incômodo, a dramaturgia o traz para a superfície, escutando como ele se manifesta em músculos, respirações, rotinas e afetos. As experiências particulares do ator se desdobram em imagens que apontam para uma dimensão coletiva, convertendo pequenos gestos do cotidiano em enunciados políticos.
Lucas assina tanto a dramaturgia quanto a direção, conduzindo todo o processo sozinho pela primeira vez. “Desta vez eu quis assumir tudo, da criação à direção. A proposta mantém o caráter de leitura dramática, mas com recursos pontuais que contribuem para a construção simbólica da cena”, explica o artista, que tem como uma de suas referências o trabalho “O Narrador”, de Diogo Liberano. O figurino, composto por blusa de botões, calça e meias, preserva um corpo reconhecível, que poderia estar nas ruas, nos ônibus, nas filas de espera. Já os tênis espalhados pelo espaço criam uma constelação no chão, evocando trajetos interrompidos e o incômodo sensorial.
Entre esses elementos, os sapatos funcionam como chave sensorial e metáfora. A imagem do corpo descalço, colocado diante de superfícies lisas que o desorganizam, revela uma percepção do mundo permeada por texturas, sons e contatos que muitas vezes passam despercebidos. “Estar descalço, apesar de parecer algo simples, me desestabiliza. O contato direto com certas superfícies provoca distração, incômodo e interfere na organização dos meus pensamentos”, conta Lucas. Em contraste, ele comenta que “a água produz o efeito oposto, trazendo maior regulação e conforto”. O que poderia ser lido como detalhe é deslocado e transformado em instrumento de leitura do próprio tempo.
Embora nasça de uma escuta íntima, “Desassossego” recusa o confinamento ao campo do individual. Inspirado em referências como a canção “Povoada”, de Sued Nunes, Lucas atualiza a ideia de “sou uma, mas não sou só”. “Minhas inquietações não são isoladas, elas ecoam em muitas outras pessoas”, diz o artista, ao comentar a sensação de povoamento que abarca o texto. As questões narradas em cena reverberam em inúmeras histórias que passam por racismo, LGBTQIA+fobia, capacitismo e normas silenciosas que regulam comportamentos. Assim, o cotidiano emerge como território de disputa, e o cuidado consigo passa a ser entendido como gesto de afirmação, escolha política que tensiona padrões de normalidade.
Além de levantar questões importantes, o solo as transforma em presença. “Entre todos os meus desassossegos, o maior é o desejo de emancipação humana”, resume o ator. “A possibilidade de que todas as pessoas, independentemente das estruturas e rótulos que as atravessam, possam existir com liberdade e respeito”, deseja. Entre memórias fragmentadas, metáforas e pausas necessárias para respirar, o trabalho propõe uma conversa sobre essa busca e a possibilidade de existir com dignidade, para além dos nomes que costumam reduzir e silenciar.
Sobre Lucas Lopes
Natural de Belo Horizonte, Lucas Lopes é escritor, ator e produtor cultural. Autor dos livros “Marcas”, “A Terceira Noite”, “Agridoce”, “Entre Nós” e “Tons do Arco-Íris”, desenvolve uma pesquisa que articula literatura, identidade e política do sensível, cruzando criação artística e reflexão social. Em “Desassossego”, condensa esse percurso em um gesto cênico que convida o público a compartilhar inquietações e a imaginar outros modos de estar no mundo.
SERVIÇO
Monólogo “Desassossego”
Data: 18/04
Horário: 13h
Local: Centro Cultural Venda Nova (rua José Ferreira dos Santos, 184, Jardim dos Comerciários)
Valor: Gratuito mediante retirada de ingresso no link
Oficina: Escrita através da memória
Data: 18/04
Horário: 9h
Local: Centro Cultural Venda Nova (rua José Ferreira dos Santos, 184, Jardim dos Comerciários)
Valor: Gratuito mediante retirada de ingresso no link
Número de vagas: 20
Foto: Vitor Adalberto
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