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Pseudoamor aos animais: quando o discurso não encontra a prática
Por Inês Marzano
Há momentos em que a gente aprende da forma mais dolorosa possível. Escrevo hoje não apenas como alguém que ama animais, mas como uma tutora que viu, de perto, o sofrimento de um filhote e a face mais fria de um sistema que, muitas vezes, se vende como acolhedor.
A história começa com uma cadelinha resgatada da rua pelo meu irmão. Após anos, ela teve sua segunda cria: seis filhotinhos lindos, saudáveis, cheios de vida. Quando estavam com cerca de um mês, ainda frágeis e descobrindo o mundo, um acidente mudou tudo. Um deles foi atropelado. Um susto enorme. Correria, desespero, e a decisão imediata de levá-lo a uma UPA veterinária na região norte.
Lá, foi feito o raio-x e diagnosticada uma fratura na tíbia. A patinha foi imobilizada, e seguimos com a esperança de recuperação. Após alguns dias, retornamos para a troca de curativo. O procedimento chamou atenção — um curativo que envolvia completamente o pezinho. Orientaram voltar em uma semana para retirada da tala.
Até então, acreditávamos estar no caminho certo. Mas, ao retornar, a surpresa foi devastadora: a patinha estava completamente infeccionada. O cenário mudou drasticamente. Suspenderam a tala, iniciaram antibióticos, anti-inflamatórios e passaram a tratar uma ferida extensa que, até então, não existia naquele grau.
Seguimos retornando, buscando melhora. Mas o que veio foi um novo choque: a recomendação de amputação da pata, acompanhada de um orçamento de R$ 3 mil. Isso após já termos arcado com cerca de R$ 1.870 durante a internação, R$ 380 de raio-x emergencial, além de medicamentos e outros custos.
Diante disso, veio o desespero. Pedi ajuda, implorei por alguma alternativa. A resposta foi direta: apenas mediante pagamento. Sem negociação, sem empatia, sem qualquer sinal do tão falado “amor aos animais”.
Foi então que surgiu um contraponto que devolveu um pouco de esperança. A indicação da Dra. Bárbara, uma veterinária experiente, que foi até nossa casa. Com conhecimento, cuidado e sensibilidade, ela assumiu o tratamento. E não apenas isso: trouxe humanidade ao processo.
Hoje, o filhotinho segue em tratamento. Perdeu parte dos dedinhos — consequência de um manejo anterior —, mas mantém a patinha. Está sendo cuidado diariamente, com técnica e, acima de tudo, com compromisso real com a vida.
Fica aqui uma reflexão necessária: nem todo discurso de amor aos animais se sustenta na prática. Existe, sim, uma linha tênue entre o cuidado genuíno e a mercantilização da vida. E, quando essa linha é ultrapassada, quem paga o preço são os mais vulneráveis.
Este não é apenas um relato. É um alerta.
Que tutores estejam atentos. Que perguntem, questionem, busquem segundas opiniões. E que nunca se esqueçam: empatia e ética não deveriam ser diferenciais — deveriam ser o mínimo.
Porque amar animais vai muito além de palavras. É atitude. É responsabilidade. É, acima de tudo, respeito pela vida.
Foto: Divulgação
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