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Bico de pena, imaginação e resistência artística marcam novo livro de Weis Almeida

Em tempos de inteligência artificial e imagens instantâneas, artista mineiro aposta em técnica secular para apresentar universo visual marcado por fantasia, natureza e riqueza de detalhes

Em uma época em que imagens são produzidas em segundos e ferramentas de inteligência artificial multiplicam estilos e referências em velocidade inédita, o artista mineiro Weis Almeida escolheu seguir por outro caminho. Em vez do imediatismo digital, apostou em uma técnica que atravessa séculos e ajudou a construir a história das artes visuais: o bico de pena.

Essa escolha estética e artística ganha forma em Bicos de pena nos jardins do paraíso, livro que reúne desenhos marcados por minúcia, imaginação e um universo visual que transita entre o fantástico, o humano e o simbólico. As obras apresentam personagens híbridos, animais, elementos da natureza e figuras que parecem surgir de sonhos, fábulas e memórias.

Mais do que ilustrações isoladas, os trabalhos constroem pequenas histórias visuais. Juntos, formam um grande mosaico de imagens que convidam o observador a desacelerar o olhar e descobrir detalhes que, muitas vezes, passam despercebidos em uma primeira observação.

A escolha pelo bico de pena não foi aleatória. A técnica atravessou gerações e foi utilizada por artistas como Leonardo Da Vinci, Rembrandt, Van Gogh, Picasso e Alberto Dürer. Nos quadrinhos, nomes como Robert Crumb, Frank Miller e Alan Moore também adotaram a linguagem em parte de suas obras.

Segundo Weis Almeida, a decisão de investir em uma técnica tradicional representa também uma forma de resistência criativa diante do excesso de velocidade que marca a produção contemporânea.

"Vivemos um tempo de imagens rápidas e descartáveis. Eu quis voltar para um processo mais lento, em que o desenho exige permanência, observação e tempo. O bico de pena tem isso. Cada traço deixa sua marca e não permite atalhos", afirma o artista.

O universo criado por Weis dialoga com referências que vão da natureza aos quadrinhos, passando pela contracultura, pelo surrealismo e por elementos do imaginário popular. Há momentos de delicadeza, humor, estranhamento e até pequenas provocações visuais espalhadas pelas composições.

A relação do artista com esse universo começou décadas atrás. Durante os anos da ditadura militar, participou da cena contracultural em Minas Gerais, colaborando com publicações como O Vapor e Circus. Também publicou em revistas como Meia-Sola, Cartum e Uai, participou de exposições no Brasil e no exterior e ilustrou diversos livros de literatura infantojuvenil e adulta.

Ao longo da carreira, atuou também na Cemig, onde exerceu atividades ligadas à produção cultural e chegou a ocupar a função de curador da Galeria de Arte da companhia.

Hoje dedicado exclusivamente à produção artística, Weis apresenta uma obra que reúne décadas de experiências, referências e amadurecimento criativo. Para o artista, o livro não pretende oferecer respostas prontas.

"Cada desenho conta uma história diferente. Gosto quando as pessoas olham e encontram coisas que nem eu havia percebido. A arte também acontece no olhar de quem observa", diz.

Foto: Divulgação

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