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Cinema Falado traz ao MIS Cine Santa Teresa o filme "Eles não usam Black-Tie"

O projeto Cinema Falado traz este mês ao MIS Cine Santa Teresa o filme "Eles Não Usam Black-tie" (Brasil, 1981, 2h14), de Leon Hirszman. A apresentação gratuita será amanhã, terça-feira, dia 20, às 19h30, na Sala Geraldo Veloso. O MIS Cine Santa Teresa fica na rua Estrela do Sul, 89, bairro Santa Teresa, (Praça Duque de Caxias), Belo Horizonte.

A promoção é do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) e do Instituto Humberto Mauro. Classificação indicativa: 16 anos.

Pedro Vaz Perez vai comentar o filme. Ele é jornalista, professor do curso de cinema e audiovisual da PUC Minas e pesquisador em história do cinema brasileiro. Atualmente, realiza pesquisa de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF).

 

Cinema Falado é um projeto do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC-MG) e do Instituto Humberto Mauro, em memória do crítico e cineasta Geraldo Veloso, com o apoio do Museu da Imagem e do Som (MIS), do jornal O TEMPO, da rádio SUPER FM e da Contorno Áudio & Vídeo.

Uma reflexão sobre o filme:

DOIS PONTOS DE VISTA DE UMA MESMA REALIDADE: UMA REFLEXÃO NEM UM POUCO IMPARCIAL

Dirigido por Leon Hirszman, nome conhecido do Cinema Novo, mas nem sempre lembrado e, ainda hoje, pouco visto e discutido, "Eles Não Usam Black-Tie" (Brasil, 1981, 2h14) é a adaptação cinematográfica da peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri, encenada pela primeira vez em 1958 no politizado Teatro de Arena. O título da peça é uma provocação ao TBC (Teatro Popular de Comédia), conhecido como teatro “de entretenimento”, que divertia o público com textos que geralmente retratavam a burguesia e estavam distantes da realidade brasileira – o povo não usa black-tie.

Panorama realista das favelas dos grandes centros urbanos, a peça foi sucesso de público, abordando temas como o movimento operário no Brasil e as difíceis condições de vida dos trabalhadores. Hasteia uma bandeira democrática e humanista, nem um pouco imparcial. Numa temporada na Bahia, a apresentação incomodou os militares. Nos dias atuais, ainda incomoda e provoca reflexões.

Tião (Carlos Alberto Riccelli) é um jovem operário que fura o movimento grevista por medo de perder o emprego e por não acreditar no poder transformador da consciência das massas. Seu pai Otávio, por sua vez, é um líder sindical veterano, leitor de autores socialistas e tem ideias progressistas. Tendo como motes o motim e o choque entre gerações, somos levados a refletir sobre os âmbitos individual e coletivo, e sobre o quanto formação, informação e engajamento pesam nas escolhas de quem tem e de

quem não tem consciência de ser uma parte importante, ainda que subjugada, da sociedade. Pai e filho têm posições ideológicas e morais divergentes.

Ocupado com a luta pelos direitos do coletivo, Otávio foi um pai ausente. Tião começa a história com a notícia de que sua namorada Maria (Bete Mendes) está grávida. Provavelmente será um pai mais presente, mas alienado. Não percebe que sem direitos trabalhistas, sem lutar por melhorias salariais coletivas, não terá condições de oferecer uma vida digna à sua família. Ele pensa exatamente o contrário: sua família é humilde, mora na periferia, justamente porque seu pai não se esforçou mais, “perdendo tempo” com a militância sindical. Para Tião, a luta não é válida, ele não enxerga a engrenagem

da qual é apenas uma pequena peça, supostamente irrisória, mas que pode parar a máquina caso se una à maioria das outras pequenas peças. A única possibilidade que vê para si é uma ascensão milagrosa individual – é uma lógica capitalista pouco provável de se realizar.

À ocasião de 20 anos do lançamento do filme, em entrevista à CUT (Central Única dos Trabalhadores), Guarnieri disse: “Quando foi retomado o tema do 'black-tie', a história do 'black-tie', para nós, era uma alegria – talvez esse não seja o termo, porque vinha uma tristeza junto. Mas era essa alegria do fazer, do falar, de se comunicar a respeito de coisas tão importantes, porque dizem respeito profundamente à vida. E à vida de quem? Da maioria, do grande coletivo, que é o povo”.

Com músicas de Adoniran Barbosa, Radamés Gnatalli, Chico Buarque e Guarnieri, "Eles Não Usam Black-Tie" foi fotografado por Lauro Escorel, e traz no elenco Fernanda Montenegro, no papel da matriarca Romana, esposa de Otávio; Francisco Milani; Lélia Abramo, que deu vida na primeira montagem da peça a Romana; Fernando Alves da

Silva, numa de suas poucas aparições após ter protagonizado "Pixote – A Lei do Mais Fraco"; e Milton Gonçalves. Recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema de Veneza; e o de melhor filme tanto no Festival de Havana quanto no Festival Internacional de Cinema de Valladolid.

Realizado em 1981, nos últimos momentos da ditadura, poucos anos depois das greves do ABC e da extinção do Ato Institucional número 5, o filme é uma homenagem de Hirszman a Guarnieri (que na primeira montagem da peça foi Tião, o filho, e, passados 20 anos, encarna Otávio, o pai), e também é um canto à liberdade, à justiça e à ética,

temas universais e que nos devem ser sempre caros, já que andam cada vez mais raros nestes dias tão estranhos.

Foto: Divulgação

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